Nada como algum momento a sós para repararmos
nossos pensamentos, indexarmos nossas prioridades, balancearmos
nossas alegrias,nossos conflitos , mergulharmos adentro e darmos de
frente com nosso medos ao longo dos nossos dias vividos.
E foi num desses momentos, que entrei em meu
quarto, apaguei as luzes, sem nenhum barulho a me incomodar,
comecei a fazer uma limpeza nos meus estresses, medos, sentimentos
e tudo mais.
Comecei a me imaginar nascendo, o primeiro choro,
após o primeiro tapa dado pelo médico, a infância simples e pura,
da saudade daquela chuva da tarde no interior, dos barquinhos de
papel a escorregar graciosamente pela correnteza, dos pés
descalços, sem camisa, olhar inocente, pronto para o que der e
vier.
Isso sem contar as pipas, os carrinhos de
madeira, o bilboquê, o patinete, e por aí vai...
Chego então na adolescência que passou rápido,
onde entramos no terrível período do conhecimento, do primeiro
emprego, da primeira namorada, o sentimento de herói, um pouco dono
de um mundo que parece ser só seu e o das possíveis
desventuras..
Finalmente entramos amargamente nas contas dos
“enta”, quarenta, cinqüenta, sessenta, e é aí que nos
defrontamos com a mais temerosa pergunta: até quando?
Já contava Wood Allen, que em uma festa, um amigo
perguntou se estava contente de estar naquele evento e ele
respondeu prontamente: - Com certeza!
Porém com a minha idade estou contente de estar
em qualquer lugar...O importante é estar...
E assim continuo meu auto conhecimento, mas
interessante mesmo é que não vieram lembranças tão ruins, embora
tivesse passado por intempéries de todo o tamanho, as coisas boas
resistiram em meus pensamentos.
Lembrei-me então de coisas pequenas, mas que me
fizeram sorrir, e de certa forma criaram pointers em minha
existência:
Como exemplo, um porteiro de meu prédio em dado
momento da vida chamado Adelino, que um dia me cumprimentou ao
chegar do trabalho: - Utentasso seu Ademí. ( Eu não entendi
direito, mas ele repetiu: - Utentasso seu Ademí.
Eu prontamente respondi: - Utentasso.
E subi ao meu apartamento me perguntando: será
que o Adelino apreendeu a falar alemão? Mais tarde fui
comprar pão e não agüentei: - Adelino, você falou em que língua
(idioma...) quando adentrei no prédio, quando disse Utentasso
?
E ele respondeu: - Não seu Demi, eu falei
Utentasso, a lutcha de
hoje.
Ah! Agora sim, Adelino!
Hoje tem Taison, a luta de Boxe que tem
hoje pelo título mundial ...
Lembrei-me também da ex-secretária de meu pequeno
escritório, que tirou uma cópia de um documento e virou toda
contente, tentando mostrar eficiência e falou : - Olha que legal, a
cópia saiu igualzinha!...
Essa mesma secretária não conseguia fazer certa
porcentagem em uma máquina de calcular, e falei para ela dar uma
limpada e começar tudo de novo. Ela pegou a blusa e limpou o
mostrador da máquina!!!
E aquele mendigo que gritou nervoso para seu
largado cachorro que errou o caminho ao atravessar a rua no centro
de São Paulo:
- Você sabe que não é por aí, quantas vezes tenho
que repetir isso?!
E ainda completou: - Caramba, negão, o que mais
posso fazer por você?
O cachorro parou , olhou para Ele e continuou seu
caminho ...
E do segurança em frente de uma grande
empresa em São Paulo que em dúvida perguntei : - Por favor, aqui é
zona azul?
E recebi como resposta: - Desculpe senhor, mas
não tenho permissão para informar.
E lembrei do meu filho que estava esperando
ônibus na Consolação quando um cego que estava ao seu lado ,
perguntou : Por favor que ônibus vem vindo ? Ele olhou para o
ônibus e ficou sem saber o que falar ao mendigo, mas não teve jeito
: É o Boa Vista.
O cego falou : que coincidência hein , mas
obrigado ...
E teve mais algumas pílulas de humor rememoradas
naquele momento de reflexão, que efetivamente passei !
Mas fica uma pergunta a todos que leram esta
minha coluna:
Nessa minha viagem interior, por que houve uma
total predominância de fatos leves e até cômicos que suplantaram
coisas sérias e complexas passadas?
De minha parte, penso que nosso inconsciente
também cansa da perversidade diária de nosso
ccminho e dá uma aliviada.
Seria como uma ordem comandada pela nossa mente,
para darmos uma tangenciada para o sei lá o que, como talvez ,
deixe vida correr pois no fim tudo dá certo...
Penso que fosse comco a nossa mente desse uma
dura no nosso subconsciente igualmente como o mendigo deu em seu
cachorro:
Caramba, Negão, o que mais posso fazer por
você?
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